Como vimos em capítulos anteriores, a Universal Pictures teve sua fase de produções classe 'A' de terror, entre 1923 e 1935, e com a saída de Carl Laemmle pai & filho (e a chegada da Segunda Guerra Mundial), as verbas para o gênero foram minguando. Imperaram então os 'B Movies'- filme B é uma produção comercial de baixo orçamento. Em seu uso original, durante a Era de Ouro de Hollywood, o termo identificava os filmes destinados à distribuição como a metade inferior menos divulgada de uma sessão dupla (semelhante aos lados B de músicas gravadas). No terror B predominaram os cientistas-médicos loucos e suas criações, um dos precursores do gênero foi...
"Invisible Ray" (O Poder Invisível, 1936) de Lambert Hillyer
Sci-fi e terror no quarto filme que juntou os dois astros do terror, como sempre vivendo personagens antagônicos- aqui, Lugosi é o cientista humanitário e racional, em contraste com o obcecado e depois assassino Dr. Ruhk, de Karloff.
John P. Fulton providenciou elogiados efeitos especiais para a produção, que no entanto, reutilizou cenários do seriado de sci-fi e aventura "Flash Gordon" (1936), além de maquinários elétricos do laboratório de "Frankenstein" (1931).
https://archive.org/details/1936-invisible-ray-the
"Night Key" (A Chave Noturna, 1937) de Lloyd Corrigan
David Mallory (Boris Karloff) é um velho e excêntrico cientista\ inventor, que desenvolve um avançado alarme contra roubos, e tenta se vingar do homem que roubou os lucros de sua invenção ( Samuel Hinds) antes que ele fique cego.
O inventor então é pressionado por uma gangue de bandidos liderados por 'The Kid' ( Alan Baxter), que querem o dispositivo para facilitar seus roubos.
Mas, para proteger sua filha Joan (Jean Rogers) e sua criação, ele usa o 'olho elétrico' (efeitos visuais de John P. Fulton) para eliminar os criminosos...
Policial B de suspense com elementos de sci-fi. Karloff faz um personagem diferente do habitual, um amável inventor que é vítima de vários malandros. Em uma cena, o bondoso cientista mata um dos bandidos com uma lenta e dolorosa carga elétrica...
https://fsharetv.co/movie/night-key-episode-1-tt0029309
"The Phantom Creeps" (A Sombra Destemida, 1939) de Ford Beebe & Saul Goodkind
Dr. Zorka (Bela Lugosi), é um cientista louco, criador de várias armas de guerra, incluindo um cinto que o torna invisível; um horrendo escravo robô de 2,5 metros de altura ( Ed Wolff)...
... aranhas robôs mortais, e que também possui um fragmento de meteorito do qual extrai um elemento que pode induzir a animação suspensa. Espiões estrangeiros, e agentes do departamento de inteligência dos EUA, tentam roubar ou comprar suas descobertas. Quando sua amada esposa (Dora Clement) é morta, Zorka, enlouquece de vez, e jura vingança eterna contra qualquer um que tente usar suas criações para conquistar a liderança mundial...afinal, ELE quer dominar o mundo! O Capitão Bob West (Robert Kent) e a bela repórter Jean Drew (Dorothy Arnold) tentam deter o cientista.
Aventura de espionagem, sci-fi e terror (quase infantil) em seriado para o cinema em 12 capítulos. Edward Van Sloan também aparece como o chefe da quadrilha de espiões. Uma infinidade de cenas de arquivo completam a ação, como era de praxe nos seriados. Trash divertido, que depois foi condensado como um longa metragem de 1h 29.
Em meados da década de 40, os filmes com médicos loucos eram um dos sub gêneros mais populares do terror, principalmente entre os pequenos estúdios ( Republic, Monogram, PRC, etc.) da chamada 'poverty row'/'linha da pobreza' de Hollywood.
Mas, os estúdios maiores, principalmente a Columbia e a Universal, também tiveram uma infinidade de doutores malucos e malignos.
"Black Friday" (Sexta Feira 13, 1940) de Arthur Lubin
O Dr. Sovac (Boris Karloff) transplanta o cérebro de um gângster para o corpo de seu amigo Professor Kingsley (Stanley Ridges), para salvar sua vida depois de um tiroteio. O efeito colateral da operação causa uma perigosa dupla personalidade, e o inofensivo professor vira um assassino.
Policial com elementos de terror e sci-fi, com roteiro de Curt Siodmak. Divulgado como um filme Karloff/Lugosi, decepciona, porque Bela Lugosi tem apenas um papel menor como um bandido, eles não aparecem juntos na tela e o foco do show é na verdade o professor de Stanley Ridges.
https://www.youtube.com/watch?v=EKypdRfy-Zo
Nessa época, a Universal precisava urgentemente de outro 'astro aterrorizante' agora que Karloff estava se distanciando de interpretar monstros, e havia um mercado lucrativo para filmes B de horror. Creighton Chaney, tinha uma vida difícil como ator sem créditos em várias dezenas de filmes por dez anos, e relutantemente concordou em mudar seu nome artístico para o de seu pai famoso, a fim de conseguir papéis maiores e alimentar sua família. Seu papel de destaque veio na adaptação do romance de John Steinbeck "Of Mice and Men" (Carícia Fatal, 1939), quando ele fez uma interpretação verdadeiramente memorável como o deficiente mental Lenny . Esse papel da criança inocente presa no corpo de um gigante se adequava perfeitamente às suas limitadas habilidades de atuação, e a Universal decidiu testar Lon Chaney Jr. em...
"Man-Made Monster" (O Monstro Elétrico, 1941) de George Waggner
O trabalhador Dan McCormick ( Chaney ), milagrosamente sobrevive a colisão de um ônibus com uma torre de eletricidade de alta voltagem. Acontece que Dan tem uma tolerância excepcionalmente alta para eletricidade, algo que desperta o interesse dos pesquisadores Dr. Lawrence ( Samuel Hinds ) e Dr. Rigas ( Lionel Atwill). Os dois estão ansiosos para estudar Dan, pois esperam que sua alta tolerância ajude no tratamento de vítimas de eletrocussão. Para manter sua 'imunidade' eles o tratam com doses diárias de choques elétricos, enquanto o hospedam na imponente casa/laboratório do Dr. Lawrence. No entanto, o louco Dr. Rigas tem outros planos...
...ele transforma Dan em um 'monstro elétrico', um poderoso zumbi sob seu controle.
Quando Lawrence retorna para descobrir o que aconteceu, Rigas ordena que Dan o mate e depois confesse à polícia. Dan é condenado e sentenciado à morte. No entanto, ser colocado na cadeira elétrica só serve para torná-lo ainda mais poderoso e mortífero. Com uma supercarga em seu corpo brilhante ele mata várias pessoas, incluindo Rigas, salva a bela filha de Lawrence, June (Anne Nagel), antes de ficar sem eletricidade e morrer...
Chaney usa uma roupa de borracha 'isolante', e uma maquiagem feita por Jack Pierce. Os efeitos que fazem o 'zumbi elétrico' brilhar, foram realizados com competência, apesar do baixo orçamento, por John P. Fulton.
É um filme B modestamente bem feito. AmbosLionel Atwill e Lon Chaney, Jr. estão em boa forma. Atwill vive de maneira mais demente, um dos inúmeros cientistas-loucos que fez em sua carreira. Chaney foi lançado no papel-título de "The Wolf Man" (1941), nove meses depois, novamente trabalhando com o diretor George Waggner, e se transformou em um ícone do terror. https://www.dailymotion.com/video/x6d7ldk
"The Strange Case of Dr. Rx" ( O Estranho Caso do Dr. Rx, 1942) de William Nigh
A cidade de Nova York é atormentada por uma série de assassinatos, nos quais as vítimas foram estranguladas e uma nota assinada 'Rx' foi encontrada presa ao corpo, cada nota sendo numerada sucessivamente.
O detetive particular Jerry Church (Patric Knowles) é contratado para investigar por Dudley Crispin (Samuel S. Hinds), que era o advogado de todas as vítimas. A linda escritora de mistério Kit Logan (Anne Gwynne) é vizinha do detetive, e se envolve tanto na investigação quanto na vida dele.
O principal suspeito é o sinistro Dr. Fish (Lionel Atwill), mas...
Drama de mistério policial, com elementos de terror e humor. O filme na verdade é uma grande bagunça, e parece ter sido criado totalmente no improviso. O vilão encapuzado mantem um gorila (Ray Corrigan) em cativeiro em seu laboratório, e murmura algo sobre transferência de cérebros...
...mas isso não faz nenhum sentido no roteiro. Muitas fotos de divulgação também mostram Anne Gwynne nas garras do gorila portando uma enorme clava...o que nunca acontece!
A parte de humor é fornecida por Mantan Moreland (1902-1973), um comediante afro-americano de olhos esbugalhados que era popular em papéis coadjuvantes durante a época; e por Shemp Howard (1895-1955) do grupo "Os 3 Patetas", como um sargento alcoólatra e chato. Atwill, um dos grandes 'cientistas loucos' do cinema, aqui é apenas um suspeito e chamariz para o pequeno e estranho filme...
Maquiagem especial de Jack Pierce, muitas cenas de arquivo de "Big Cage" (1933) com o domador de leões Clyde Beatty, e John Carradine (1906-1988) em seu primeiro papel de cientista louco, dos inúmeros que faria em sua extensa carreira.
O gentil Dr. Fletcher ( J.Carrol Naish) é levado a julgamento pelo assassinato de uma mulher. Ele explica sua incrível história: ele obteve o corpo de um gorila morto durante uma fuga de um circo e o reviveu, e o animal escapou de seu laboratório. Ao mesmo tempo, a misteriosa Paula (Acquanetta) apareceu para ser sua paciente.
Em uma viagem pelos Mares do Sul, o professor Norman Reed (Lon Chaney Jr.) se casa com a estrangeira Paula (Anne Gwynne). Corroída de ciúmes, sua ex-namorada Ilona (Evelyn Ankers) está decidida a recuperar Reed, utilizando entre outras coisas, as crenças vodu de sua jovem esposa...
Mistério e terror classe B. A Universal escalou *Gale Sondergaard, e *Rondo Hatton para papéis semelhantes aos que fizeram em filmes da série com Sherlock Holmes- Gale foi a vilã em "The Spider Woman" (1943), e Hatton o assistente deformado-assassino em "The Pearl of Death" (1944). Apesar do título e do papel de Sondergaard, o confuso (mas divertido) pequeno filme (apenas 59 minutos) não é uma continuação, e nem conta com Holmes para solucionar os estranhos crimes.
Diversos fatores quase transformaram "The Brute Man" em um filme perdido. Primeiro, o falecimento precoce de *Rondo Hatton aos 51 anos, antes do lançamento dos filmes. Segundo: a Universal Pictures havia finalizado sua fusão pendente com a International Pictures (transformando-se em Universal-International), e adotado uma política contra o lançamento de mais filmes B , então vendeu "The Brute Man" por uma bagatela para a 'poverty row' PRC ( Producers Releasing Corporation) , que distribuiu o filme sem qualquer menção do envolvimento da Universal na publicidade ou créditos. Outro fato que pesou foi que a Universal não queria prejudicar a sua imagem de grande empresa com mais uma exploração do falecido Hatton e sua deformidade em seu último filme - no qual evidências de sua morte iminente podem ser prenunciadas em sua atuação. Assim, a última produção de terror B dessa fase da Universal, acabou virando um filme da pequena PRC.
💀Rondo Hatton (1894-1946) Hatton foi atleta destacado na high school e jornalista desportivo. Serviu ao exército americano durante a Primeira Guerra Mundial, quando foi dispensado devido a sua doença- ele havia desenvolvido o distúrbio hormonal conhecido como Acromegalia. A doença distorceu a forma de sua cabeça, rosto e extremidades do corpo, em um processo gradual, mas constante.
Por conta de sua aparência, foi convidado e relutantemente começou a fazer pequenas pontas no cinema, aparecendo na 'competição de feiura' na versão de 1939 de "O Corcunda de Notre Dame". A Universal Pictures usou a figura incomum de Hatton para promovê-lo como uma estrela do terror depois que ele interpretou o papel de The Hoxton Creeper no nono filme de Sherlock Holmes do estúdio, "The Pearl of Death" (1944). Ele voltou com um papel semelhante em "Jungle Captive" (1945) e "Spider Woman Strikes Back" (1946).
Fez então os dois filmes interpretando 'The Creeper', "House of Horrors" e "The Brute Man", ambos filmados em 1945, mas lançados apenas após sua morte - em 2 de fevereiro de 1946, ele sofreu um ataque cardíaco fatal em sua casa, por conta da acromegalia avançada. Rondo Hatton se tornou um ícone do terror B, e desde 2002, o 'Rondo Hatton Classic Horror Awards' presta homenagem ao ator em nome e imagem, que adornam o troféu da premiação.
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